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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sentido...



Já começo avisando que não, não estou com uma doença grave.

Neste espaço procuro me despir de toda racionalidade, aquela que faz a gente responder as pessoas "Estou bem" quando na verdade estamos morrendo por dentro. Então espero que não me julguem. Esta é minha terapia particular.

Fiquei decepcionada ao saber que não estava doente. Fiquei mesmo. Ter uma doença me fez pensar em ter um sentido pra vida. Pra viver sabe? Lutar contra algo, resistir, e se caso eu fracassasse ninguém poderia me culpar por ser incapaz; eu estava doente! As cobranças seriam menores e acima de tudo, ninguém me abandonaria.

Mas meu novo sentido não existe. E esse meu mundo imaginário, esse que crio quando não consigo lidar com a realidade, esse meu refugio, ele também não existe.

Tudo o que eu amo se vai, tudo o que sinto é avassalador e a maioria das situações, eu não sei lidar. Tem dias que acordo cheia de vontade de mudar algo, outros não quero nem acordar. Tem dias também em que eu odeio ser como sou, mas na maioria deles eu simplesmente amo. 

E sabe porque amo? Porque esta sou eu. Esta é a minha personalidade, sendo ela borderline ou não. Intensa, zangadinha, rebelde, impaciente e irritadiça e ao mesmo tempo doce, amável, amigável, solidária aos sentimentos do outro e principalmente que ama.

A novidade é que já que a vida não anda tendo muito sentido, resolvi tentar dar um sentido pra ela. Fiz vestibular para design e passei. Farei minha matricula amanhã. Vamos ver se é isso mesmo, ou se é só mais uma onda de alguma influência louca. Se no final das contas eu descobrir que a segunda opção levou a melhor eu simplesmente vou desistir. É sofrido demais não saber quem se é.


Até!



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Me ame por favor! (continuação)



O grande segredo guardado a sete chaves por mim é que eu ansiei a vida toda ter algum tipo de doença grave. Por favor, não estou aqui fazendo qualquer tipo de apologia a morte ou qualquer coisa do sentido. A coisa toda é que percebi nesse meu momento "rainha das dores" o quanto isso está relacionado a minha doença psíquica e a busca por amor. 

Vou relatar um pouquinho da minha história para que vocês entendam o que quero dizer.

Eu tenho um irmão e uma irmã que são bem mais velhos que eu. Meu irmão do meio sempre foi muito doente durante a nossa infância. Ele tinha dores de cabeça terríveis onde ele chorava, se contorcia e gritava de dor. Os médicos não conseguiam descobrir o que ele tinha. Suspeitaram de câncer, sinusite aguda, aneurisma e até mesmo HIV, mas nada foi realmente apontado como a causa do que ele sentia. Meu irmão chegou a passar alguns meses na casa de uma tia no Paraná para tratamento médico. Acontece que nesse tempo meu irmão recebia todas as atenções possíveis. Tudo era para ele, os dias de sono perdido, os carinhos, os mimos... e tudo era porque "seu irmão é doente". Até hoje meu irmão é o preferido da casa.

Voltando a falar de mim, desde a minha adolescência de alguma forma eu busquei a doença. Desejava seriamente ter algo grave, que podia acordar um dia e descobrir que tinha algum tipo de câncer ou aneurisma, ou mesmo algum tipo de doença mental grave que me levasse a um internamento em algum manicômio. Bebia até passar mal, fumava até ter falta de ar e assim levava meus dias. Sempre dizia aos meus amigos que já que eu não tinha coragem de me matar de uma vez eu me mataria aos poucos, afim de morrer precocemente.

E justamente agora, no auge dos meus 27 anos e cheia de dores pra lá e pra cá (onde é lógico que na minha mente louca penso ter algum tipo de doença grave) olhei pra dentro de mim mesma, sem pudores e sem preconceito, observando tudo o que há de mais podre em mim e me questionei o porque eu eu desejar esse tipo de coisa (afinal de contas, quem em sã consciência quer ter uma doença grave e morrer?).

Bom, sou borderline a vida toda. Desde minhas mais remotas lembranças eu demonstro traços desta dificuldade em lidar com sentimentos e situações e principalmente a carência de afeto e aprovação do outro. A grande sacada é que na doença eu vi um meio de receber carinho e atenção (tendo como principal exemplo o caso do meu irmão), vi algum tipo de amor que eu raramente experimentei e que eu desejo arduamente que as pessoas sintam por mim, em especial a minha família. E é por isso que eu não tenho medo de estar doente. Muito pelo contrário! 

EU SOU MUITO LOUCA MESMO!! Fico de cara com as coisas que descubro sobre mim. Aonde foi que eu me perdi?

A maioria das pessoas hipocondríacas são assim por medo de morrer e de ficar doente. Eu pelo contrário, sou viciada em dorflex simplesmente porque quero me entupir de alguma coisa que pode em algum momento da vida me fazer mal. Claro que o dorflex também tem um outro efeito sobre mim, principalmente nas minhas crises de ansiedade, pânico, afeto e principalmente naqueles dias que a dor e o vazio são insuportáveis, pois ele de alguma forma me acalma. Deve ser por causa do efeito analgésico. Acrescento a esta lista de "remédios para os momentos de crise" o torsilax, cuja caixa tomei toda em menos de uma semana. Tudo em excesso! Se fico gripada sempre tomo o dobro das doses de remédio, de xarope e qualquer outra coisa. Adoro tomar a minha droguinha anti-depressiva, odeio remédios manipulados e os considero ineficazes ao efeito que eu busco. 

Queridos que em algum momento lerem este blog, não achem isso legal porque definitivamente não é! Eu tenho um problema, tenho um transtorno de personalidade descrito nos manuais psiquiátricos internacionais. Tudo o que descrevi aqui não é saudável! Eu não ligo dos meus desejos auto-destrutivos, mas sinceramente e de todo meu coração não desejo isso pra ninguém!

Espero que ao menos entendam o quanto isso é um desabafo pra mim. 

Até logo.



Me ame por favor!

O ano não terminou/começou muito bom pra mim, quando se trata da minha saúde física.

Já estava mais pra lá do que pra cá a algum tempo. A dor de cabeça era quase diária, mas eu a associava a minha péssima condição psíquica. Associava também a essa condição algumas dores no corpo, juntas e cansaço.

A alguns meses fui a uma dermatologista a fim de saber sobre a minha tenebrosa queda de cabelo. Caia tanto que eu já estava pensando que ficaria careca. Fiz todos os exames pedidos, e felizmente meus exames de sangue estavam perfeitos, exceto... Ferritina. Eu já tinha dado uma olhada nos exames e tinha visto essa alteração. Pesquisei na internet e detestei o que vi, mas minha dermatologista não levantou nenhuma questão, então despreocupei. Incrível como qualquer coisa que eu sinta eu já penso em câncer, mas de alguma forma essa ideia não me assusta.

Quando levei estes mesmos exames para a psiquiatra (porque só faziam dois meses que a dermato tinha pedido estes e ela disse que serviam), assim como a dermatologista ela concordou que meus exames estavam ótimos, mas... diferente da outra médica ela apontou o excesso de ferritina e me sugeriu dar uma olhada nisso.

Depois disso, dores na área abdominal, sangramentos, enjoos e depois do natal peguei uma gripe alérgica. Meu nariz sangrou durante a noite, enquanto eu dormia, o que pode indicar uma inflamação por rinite ou sinusite, o rompimento de uma veia ou até mesmo um pré AVC.

As dores de cabeça ainda não pararam e passei o ano novo com algum tipo de inflamação articular no ombro esquerdo e muscular na região da base do pescoço do lado direito. A alegria estava feita quando a articulação do joelho deu uma reclamada.

Marquei médico, marquei exame e marquei mais um médico. Continuo mal, aguardando consultas e exames pra saber se tem mesmo algo de errado ou se sou só sintomática mesmo.

Agora me pergunto, porque estou contando tudo isso pra vocês?


Este post termina aqui!


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Família disfuncional



Uma coisa na qual tenho refletido muito e tenho estado mais atenta é o comportamento da minha família.

Percebo como somos disfuncionais em todas as nossas relações, mesmo eu não acreditando que haja famílias "saudáveis". Eu confesso que sou completamente dependentes deles. Eles são barulhentos e não sabem conversar como pessoas normais, sem alteração da voz e sem fazer com que qualquer bate papo se transforme numa briga com gritos e tapas na mesa. Ainda sim sou dependente do carinho e afeto deles. Não que sejam corriqueiros e constantes estas demonstrações de carinho e afeto. Elas definitivamente não são. Mas minha necessidade de ama-los e sentir-me amada por eles é constante e pequenos gestos esporádicos já me confortam imensamente.

Encontrei uma descrição de família disfuncional de modelo 'cindida', na qual encaixo perfeitamente a minha família:


Os membros das famílias não conseguem se relacionar entre si. Encontram-se divididos, dispersos. Funcionam e se relacionam como se, ao ficarem juntos, todos corressem riscos do ponto de vista emocional. Assim, as pessoas não podem ter um relacionamento afetivo, são frias entre si. A doença dessas famílias cindidas está na dificuldade de convívio. Os membros percebem que ao conviverem entre si eles se machucam e se afetam negativamente, uns aos outros. (clique para saber de onde tirei esta informação)

Incrível como os acontecimentos da minha vida me levaram a observar minha família mais atentamente. Algumas coisas que percebi:

Aqui não há pedidos, há ordens. 
Aqui não há compreensão, há culpa. 
Aqui não há liberdade, há cobranças. 
Aqui não há respeito a individualidade, há imposição de vontades.
Aqui não há diálogo, há palavras finais.

Muitos podem pensar "Nossa, que ruim, e agora?". Já eu vejo por outro lado. Perceber estes aspectos da minha família pode ser altamente benéfico para mim. Em análise (terapia) identifiquei a alta dificuldade que possuo de reagir a todas estas situações. O sentimento que reside em mim é sempre de dor e sufocamento. Dentro da minha casa estou sempre tensa. Estas coisas relacionadas acima ativam tudo o que há de mais doloroso em mim. 

E qual a mágica? 

Ao identificar estes pontos eu posso encontrar a melhor forma de reagir a eles, deixando ou não as reações negativas acontecerem, porque agora eu sei quando isso vai acontecer. Não é legal?

Claro que não é fácil, e vai exigir um longo período de compreensão, testes e até mesmo sofrimento. Mas me sinto disposta a enfrentar isso em prol de uma melhor qualidade de vida para mim e para as pessoas que amo.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Voltando a fazer planos



Ah, tenho me sentindo animada nos últimos dias. Depois de mais de um ano de total inércia eu finalmente estou criando esperança e fazendo novos planos pro futuro. Não são planos concretos ainda, são fumacinhas que andam rodando a minha cabeça e me deixando ansiosa.

Todo esse tempo eu simplesmente achei que não haveria futuro. Seria melhor, mais fácil e menos doloroso morrer de uma vez por todas. Era desesperançoso. Não tratava-se das minhas tão corriqueiras mudanças de opinião, ou insegurança, ou confusão por mudar o que queria pra minha vida a cada dia. Não se tratava deste traço que corrobora pro meu diagnóstico borderline. Não! Tratava-se da depressão, que estava me enlouquecendo, tirando todo o meu desejo de futuro, até mesmo o meu desejo de mudar de desejo a cada 5 minutos.

Acho que finalmente a depressão está amenizando. Acredito eu que graças a medicação receitada pela psiquiatra. Ainda sim, isso me deixa aliviada. Continuo border como sempre, mas um pouco mais dócil graças a terapia. É nela que eu estou me descobrindo e firmando a minha personalidade real. Claro que eu nunca vou deixar de ser border, e nem sei se quero isso afinal é melhor sentir demais do que não sentir nada, mas ser e saber lidar com isso tornará tudo muito mais fácil.

Continuo fazendo meus artesanatos. Terminei uma almofada de retalhos e agora comecei uma de fuxicos. Estou me organizando para estudar desenho em casa mesmo, já que a minha grana está curta e não vai dar pra custear tudo o que eu desejo fazer. Minha psiquiatra disse que está na hora de eu começar a fazer uma atividade física. Eu sempre tive muita vontade de fazer pilates, mas é tão caro... Ainda estou fazendo os cálculos pra ver se vou ter condições de investir nisso. Caso o dimdim não dê vou fazer alguma modalidade de dança no Sesc, talvez balet ou dança do ventre. Também quero me inscrever no teatro. Acho que vai me ajudar muito. Todas estas são coisas que amo me imaginar fazendo e que sei que me deram um prazer imenso.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Abandono e pânico: minha primeira recordação

Não sei ao certo quando comecei a me sentir ou ser assim, mas minha memória sempre me leva aos meus 10 anos mais ou menos, talvez um pouco menos.



Meu primeiro episódio de pânico com relação ao abandono eu tinha menos de 10 anos. Não me lembro se eu já frequentava a escola, mas acredito que sim. No dia em questão eu e minha mãe estávamos sozinhas em casa. Meu pai havia levado meu irmão para pescar e minha irmã estava na casa de alguma de nossas primas. Enfim, eu e minha mãe estávamos sozinhas em casa.
Era por volta de 3 ou 4 horas da tarde e minha mãe disse que era hora de tomar banho. Entrei no banheiro e ela entrou comigo. Conversamos um pouco e ela saiu do banheiro, me deixando tomar banho sozinha. Até ai tudo bem, normal como em todos os dias. Eu aproveitei para brincar, e demorei um bocado no banho. Achei legal porque minha mãe não veio dizer que eu devia terminar logo o banho.
Terminei. Desliguei o chuveiro, me sequei e fui pro quarto me trocar. Coloquei uma roupa e chamei "Manhê". Não houve resposta. Chamei de novo "Mãe". Nada...
Foi ai que o desespero começou. As lágrimas começaram a escorrer e eu sai pela casa procurando ela e chamando-a. Em cada cômodo um novo soluço e uma dor que ia aumentando cada vez mais no meu peito. Meu coração batia rápido. Me vi totalmente sozinha, com medo e desesperada. Saí para fora de casa e tranquei o portão, entrei e tranquei todas as portas e janelas. Me joguei no chão do corredor dos quartos e comecei a gritar. Dava murros no chão, chorava e perguntava porque ela tinha me abandonado, me deixado ali sozinha. A dor era enorme, como se ela pudesse a qualquer momento se projetar para fora de mim e se materializar.
Foi então que eu ouvi ela me chamar do portão. Fui até a janela e lá estava ela, também desesperada me chamando, pedindo para eu abrir o portão. Fui lá, mas meu pai havia levado a chave do portão com ele. Ela pulou o portão e me perguntou o que estava acontecendo, porque ela estava na vizinha e ouviu meus gritos de lá. Eu continuei chorando e me sentindo muito envergonhada por ter me desesperado e enlouquecido daquela forma. Falei que ela me deixou sozinha e não me avisou que sairia. Não me lembro se ela me abraçou, mas ela disse que como eu poderia pensar que ela ia me deixar sozinha.

Este acontecimento sempre me deixou confusa. Sentir medo em me ver sozinha é aceitável, tendo em vista que eu era uma menina pequena, mas a intensidade daquele sentimento, que depois se repetiu tantas e tantas vezes na minha vida, é que me chama a atenção. Ate saber que eu sou borderline eu achava que todas as pessoas se sentiam como eu. Achava sem coração as pessoas que terminavam e começavam relacionamentos com a facilidade com que trocam de roupas, ou sentia uma certa inveja das pessoas que saiam da casa de seus pais e se tornavam bem sucedidos e independentes, porque eu queria conseguir ser como elas. Eu sempre me perguntei o que havia de errado comigo?

Tudo agora é uma construção e digo que é extremamente difícil. Difícil porque estou cercada por pessoas que não compreendem o meu transtorno, e ainda pior: não o aceitam. Tive uma briga com meu pai na ultima quinta-feira. Meu pai é o mestre de jogar com a culpa. Eu expor meu desejo de morar sozinha fez com que ele decretasse que eu não os amo (ele e a minha mãe) e que ele não poderia contar comigo para nada. Todos os meus medos se concretizam em saber que ele decepcionou-se comigo pois não sou bem sucedida como ele tanto investiu ou orgulhou-se de dizer quando passei em uma universidade federal ou fui fazer mestrado numa das mais conceituadas universidades do país, não sou responsável como ele sempre achou que eu seria, não sou uma boa filha porque não me importo com eles...

Por mais que eu queria transformar essa dor que esmaga meu peito a cerca de 20 anos, as vezes acho que nunca conseguirei.

Percebo cada dia mais que é um caminho que preciso percorrer sozinha. Cada vez mais é necessário que eu abandone a aceitação e aprovação do outro para constituir a minha vida. Ainda que a dor seja indescritível, sei que eu e tantos outros borders somos imensamente fortes, pois vivermos sob tensão, dor e pressão todos os dias, meses e anos de nossas vidas, e ainda sim conseguimos acordar todas as manhãs para mais um dia.


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Nem sempre o que os olhos vêem é o que o coração sente

imagem de: http://jakko90.deviantart.com/art/Borderline-Personality-Disorder-395119703

Olá pessoal! Desculpem o sumiço. Fiquei uns dias sem internet em casa. Depois tirei uns dias de folga na chácara dos meus pais. Agora, retornei a cidade e a minha tão monótona existência.

Cheguei justamente na quinta-feira, as 10:45h da manhã, direto no consultório da minha psicóloga. Foi uma sessão maravilhosa, intensa e dolorosa. Sai de lá triste. Triste por ser como sou. Por me ferir, me machucar e achar que de alguma forma eu mereço toda essa dor. 
Meus dias oscilam entre ora suportáveis ora insuportáveis. Na verdade não me sinto viva. Me sinto como alguém que apenas existe. Cuja vida não tem graça, não tem razão nem sentido de ser. Na sexta recebi uma mensagem que me matou mais pouquinho. Passei praticamente todo o final de semana dormindo, tentando fazer sumir esse sentimento de vazio e dor.

Ontem deitei pra dormir cedo, mas demorei pra pegar no sono. Durante todo o tempo minha cabeça borbulhava de pensamentos. Pensei na minha vida, nas coisas de que fiz por impulso, nas coisas que fiz por amor, nas mentiras que criei para manter esse amor e nos amigos que perdi por ter amado tanto. Pensei em como as pessoas comentaram o meu sumiço (dois anos), em como elas me julgam e o quanto sou incapaz de explicar-lhes o porque de tudo ter sido como foi. Até mais do que incapacidade, pura preguiça de explicar, de expor a minha vida para pessoas que sei que vão apenas me julgar louca.

Ontem pensei que seria muito mais fácil morrer. Morrer a ter que aprender a lidar com a minha família, morrer a ter que dizer não aos meus pais, morrer a ter que reconquistar pessoas que perdi, morrer a ter que começar tudo do zero, morrer a ter que lutar para manter um foco profissional o pessoal. Tudo me pareceu tão difícil ontem, tão complexo, tão desgastante... 


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Eu borderline e o amor por um psicopata



Este final de semana terminei de ler o livro Corações Descontrolados (Ana Beatriz Barbosa Silva, editora FONTANAR) e posso dizer que me identifiquei com inúmeras descrições e situações, principalmente no capitulo que trata sobre as relações amorosas. Li em algum blog sobre TPB sobre a relação amorosa de borders com psicopatas, onde estes sentem uma atração fatal, numa mistura que pode ser muito perigosa e altamente destrutiva.

Como descrever minha experiência? Sabe, eu nunca fui muito "namoradeira", ao contrário sempre tive dificuldade de me relacionar mais intimamente, tanto que considero ter tido apenas um namorado que chamo carinhosamente de: o psicopata!

Depois do fim do meu relacionamento passei dias infernais, de uma dependência sentimental exorbitante, uma alto-estima destroçada, comparações com outras mulheres e sentimentos de rejeição que me levaram a loucura (e que ainda me levam, um ano após o fim da relação). Meu namorado não era um "cara comum". A falta de amor que ele demonstrava por mim era incompreensível para alguém que dizia me amar tanto. Meu ex é epilético, tem TOC, extremamente organizado e racional, e eu por não compreender a forma dele me tratar (sempre agressivo, me humilhava, me tratava como um alienígena) passei a pesquisar na internet se havia algum transtorno que pudesse estar associado a epilepsia. Encontrei uma associação com o transtorno psicótico, porém as características de um psicótico não batiam com as dele. Busquei então as características dele: racional, vaidoso, "ciumento" (na verdade ele me tratava como um objeto que pertencia a ele e não podia ter sentimentos e desejos próprios, ou mesmo problemas pessoais. Só ele tinha problemas, só ele importava), egoísta, intolerante a frustrações, violento e agressivo, jogava a culpa nos outros, era obcecado por sexo, odiava animais de todo tipo, tinha TOC, antissocial (ele não tinha amigos, apenas uma coleção de mulheres com quem me traia), extremamente inteligente, sedutor (era inacreditável como as mulheres ficavam apaixonadas por ele), entre tantas outras características. Percebi que ele se encaixava perfeitamente no perfil de um psicopata.

Eu por outro lado, vivia pedindo perdão a ele por coisas das quais não sei porque. Chorava e implorava para que ele me amasse e não me deixasse. Perdoava as traições, as trocas de mensagens com outras. Quando ele me chamava de vagabunda e drogada eu pedia perdão, implorava para que ele entendesse que eu não saia mais, que eu não tinha mais amigos, que eu não usava mais drogas, que eu não olhava para o lado e nem imaginava ver outro homem com desejo que não fosse ele. Enviei e-mail para amigos pedindo para que não me procurassem mais, evitei fazer qualquer tipo de amizade no mestrado, não saia de casa se não fosse com ele. Fazia tudo pra ele e por ele. Costumava dizer-lhe que ele era "toda a minha vida", colocava sempre ele como prioridade, deixava de ir as minhas aulas do mestrado, deixava de fazer meus trabalhos, sempre fazia o que ele gostava e o que ele queria fazer. Tudo para atender a ele, porque só ele importava. Meu peito doía insuportavelmente com a ideia de ele me deixar. Eu o via com uma idolatria, como se ele fosse a única razão da minha existência. Nas inúmeras vezes em que ele terminou comigo eu tive acessos horríveis, não conseguia dormir, me contorcia na cama, no chão, em qualquer lugar, me batia, arremessava objetos nas paredes, urrava de dor, pedia pra Deus me matar, tomava uma cartela inteira de relaxante muscular para fazer a dor parar, ligava pra ele e implorava para que ele voltasse. 

Ou seja, era eu (sou eu) uma border perfeita!

Trechos do livro Corações Descontrolados:
"a ligação dos borders com essas personalidades (narcisistas e psicopatas) é facilmente explicável. (...) Com relação aos psicopatas, essa  visão de uma personalidade bem 'construída' ou 'estruturada' é maior ainda, pois, além de se mostrarem egocêntricos e megalomaníacos, eles costumam apresentar uma eficácia na execução de seus objetivos práticos, especialmente os de caráter material, e grande habilidade na sedução afetiva. De forma quase hipnótica, as pessoas borders exergam esses parceiros ideais para dar consistência a sua existência, além de se sentirem 'importantes' como coadjuvantes na caminhada deles rumo à obtenção de seus objetivos. Os borders se prestam a tudo e suportam violências psicológicas e/ou físicas para auxiliar os parceiros a realizar os sonhos de ascensões profissionais e sociais, numa nítida ação desenfreada que visa evitar, a qualquer custo, o abandono." 


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Boca descontrolada



Não sei muito bem quando foi que isto começou, mas sei muito bem das consequências! Já não é de hoje que sei sobre a minha compulsão alimentar. Muito antes de ter um diagnóstico TPB ou de depressão eu já falava sobre minha compulsão. Resume-se a: Estou feliz? Vou comer! Estou triste? Vou comer! Estou deprimida? Vou morrer de tanto comer! Estou ansiosa? Comer! Comer! Comer!

A comida pra mim é vida e morte. É como se eu a usasse na tentativa de preencher algo, suprir, reprimir, aliviar sensações e sentimentos que eu não sei explicar! O pior é a culpa que eu sinto depois de comer e comer coisas e mais coisas, como agora por exemplo quando acabei de almoçar e "tive" que comer um pedaço enorme de bolo de chocolate recheado somado a mais um beijinho de leite ninho. Ou como ontem, quando eu nem tinha tomado café da manhã ainda e já estava comendo três bombons de chocolate recheados com frutas. É triste e lamentável! Não é algo que se possa dizer: "controle-se", porque é insuportavelmente doloroso. Se eu não como eu sinto náuseas, dor de estômago, fico agitada e inquieta como uma drogada em abstinência, e isso é muito triste.

Minha compulsão me levou a pesar 92 quilos, quando eu tinha apenas 22 anos. Nessa época eu estava no final da minha faculdade e tinha reencontrado um amor virtual (que já era a razão da minha existência). Ele me falou que viria finalmente me conhecer na minha formatura. Ah... o amor border... Na expectativa de encontra-lo e ser desejada por ele eu consegui me manter em uma dieta e driblar a compulsão. Se eu ia comer eu pensava nele, virava as costas pra comida e fumava maços e mais maços de cigarro. Perdi 20 quilos em seis meses e quando ele finalmente chegou aqui na minha cidade eu pesava felizes 71 quilos.

Eu consegui manter esse peso nos três anos que estive com esse amor (mesmo com toda a turbulência desse relacionamento, do qual falarei numa outra ocasião). Mas, como nada na vida de um border são flores, o relacionamento acabou e cá estou eu: incontrolável! Eu tento entrar em dietas e academias, acordo em dias determinada a mudar a minha vida, mas nada dura muito tempo. No primeiro sinal de descontrole emocional (que geralmente acontece pelas mínimas coisas), tudo cai por terra e eu volto a me sentir incapaz e um lixo de pessoa.

Acho ainda mais triste enfrentar essa situação sozinha, sem uma ajuda especializada. Minha mãe sempre pegou muito no meu pé com relação a comida. Esta é uma das razões pelas quais resolvi falar disso hoje. Antes do almoço assaltei um doce na geladeira e ela retrucou "Tá querendo virar uma balofa?". Sei que na cabeça dela ela estava me alertando e desejando o meu bem (como ela fez a vida toda comigo). Mas você já tentou dizer a um viciado para que não use drogas? Não é um simples desleixo. É uma dependência somada a uma falta de amor próprio insuportáveis. Minha vontade foi responder "Deixa eu me matar e não se mete!", mas eu só sai de perto e fui me achar uma idiota no sofá da sala. Não pensem que fico feliz em ser assim. Eu não gosto de ser assim. Minha psiquiatra me passou um anti-depressivo (sertralina) que me ajudaria com os sintomas de ansiedade, impulsividade e compulsão. Faz um mês que faço uso de 50mg, e não vi melhoras nos meus sintomas de compulsão. Vou colocar isso para ela na próxima consulta. 

Minha vida tem se resumido em existir, e mesmo apenas existir tem horas que é difícil demais!

A luta continua.

Beijos. 


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sessão de Terapia #1 #2 - Por trás do véu

imagem de: http://www.internetmonk.com/archive/40465

Faz mais ou menos um mês que recebi o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline. Na primeira semana li tudo o que podia sobre o tema. Encontrei blogs muito bacanas, como o Borderline Girl e outros que não são mais atualizados a algum tempo e posso dizer que me ajudou muito a entender um pouco sobre o que eu tenho e claro, não me sentir sozinha.

Durante os meus vinte e sete anos eu sempre achei que fosse forte e que poderia lidar com tudo sozinha, mas infelizmente não posso. Por alguma razão meus pais reagiram muito mal ao diagnóstico. Minha mãe negou, disse que vamos a um neurologista, que eu não tenho nada. Claro que é difícil para ela aceitar quando mantive todo meu histórico em segredo. Na minha casa não se fazem muitas perguntas e pode-se dizer que eu sempre fui um pouco "arisca". Já meu pai, não expressa muito o que sente e no fundo acho que eu sou um pouco como ele.

Assim sendo, uma semana após o diagnóstico lá estava eu, novamente em crise, desesperada, pronta para me jogar na frente de um ônibus. Tudo desencadeado por meu ex-namorado, que me mandou uma mensagem que destroçou o resto de carne moída que tenho no lugar do coração. Naquele momento eu tive certeza que não conseguiria sozinha.

Minha psiquiatra me indicou uma psicóloga e foi pra ela que eu liguei.Infelizmente nunca consigo marcar uma consulta no mesmo dia, mas talvez tenha sido melhor assim. Semana passada foi minha primeira sessão: entre lágrimas e milhões de perguntas e amarras que me prendem tudo fluiu muito bem. Entre todas as coisas que contei para ela a grande questão nesse primeiro momento foi: "Quais os fatos da minha vida que me fazem acreditar que não consigo, que não sou capaz de fazer nada?"

Ainda não tenho uma resposta concreta, mas refletindo vejo que tenho uma tendencia a abandonar as coisas. Mudo de humor e opinião com uma facilidade incrivelmente fácil. Além disso, não consigo identificar em mim o que faz realmente parte da minha personalidade e o que foi moldado por conveniência para ser aceita pelos outros. Nisso se resume minha dificuldade: não me acho capaz porque não sei o que quero, nem sei quem sou.

E é incrível como esta resposta foi justamente a grande questão que rondou a minha segunda sessão, hoje: "Quem eu sou?" "O que realmente faz parte da minha personalidade?". Sabia que este espaço me ajudaria, pois foi exatamente agora que me deparei com isso. Como descrevi para minha psicóloga, eu vivo uma vida que não é vida, como se estivesse atrás de um véu, e tudo que vejo é turvo, impalpável, irreal... Incrível como a teia da psique vai se construindo. Isso me deixa feliz. 

A psicologa me deu alguns questionamento que terei de responder durante esta semana, são:

- O que gosta de fazer e está fazendo
- O que gosta de fazer e não está fazendo
- O que não gosta de fazer e está fazendo
- O que não gosta de fazer e não está fazendo

Partilharei aqui estas minhas descobertas. Busco descobrir a Mi e quem aqui vier irá acompanhar isso. Se vencer ou se for vencida, aqui irão saber. Só quero retirar este véu dos meus olhos.


Eu Borderline

foto de:http://modto.com/amanda-clyne-borderline/

Foi depois de uma crise terrível de ansiedade, desespero e desejo de morte que eu decidi ligar para a psiquiatra. Fui lá no catálogo do plano de saúde e procurei por algum nome. Encontrei lá uma médica que me pareceu ser a certa, sem pestanejar liguei. Queria a consulta para o mesmo dia, a mesma hora, o mesmo instante... estava desesperada! Infelizmente não consegui, e depois de uma semana, onde os ânimos já haviam se acalmado um pouco, lá estava eu no consultório esperando a minha hora de entrar.

Depois de algum tempo aguardando a minha vez, vejo entrar na sala de espera um casal de amigos. Ambos se tratam com a mesma psiquiatra, ele com síndrome do pânico, ela com depressão crônica. Fiquei divagando por alguns segundos na doloroso realidade daquilo: cada vez mais as pessoas estão doentes. Chamaram então o meu nome, e lá fui eu.

Simpatizei com a psiquiatra de cara, me senti a vontade e falei falei falei sem parar. Claro que chorei muito, um nó na garganta e um aperto no peito sufocava cada palavra. Auto-mutilação, negligencia comigo mesmo, drogas, álcool, dependência emocional, impulsividade, compulsão alimentar, baixa auto-estima (aliás, nula), entre tantas outras coisas mais, fizeram com que ela me desse o diagnóstico: Borderline.

A vida toda eu soube que havia algo de errado comigo. Impossível não achar isso quando você corta o próprio corpo ou vive uma vida baseada em auto destruir-se, sem saber quem se é. Foi assim que tantas e tantas vezes eu me olhei no espelho e me perguntei "Quem é você?". A grande questão atualmente é que este modo de viver tornou-se insuportável. São vinte e sete anos de nada!

Descobrir-me borderline foi ao mesmo tempo insuportável e libertador. Eu nunca antes havia procurado um médico, ou mesmo fui incentivada pela minha família a fazer isso. Fiz cinco meses de terapia comportamental no ano de 2010, onde fui diagnosticada com depressão e depois fiz quase dois anos de análise (psicanálise) entre 2011 e 2013, que me ajudaram a não me matar. Tudo isso sem um diagnóstico. Sou a favor do diagnóstico.Sem ele eu ainda estaria sem rumo.

Hoje, decidi que é hora de descobrir quem é essa mulher que me olha no espelho. Decidi que é hora de ama-la. Ainda que eu não saiba como fazer isso. Este espaço eu escolhi para um auxílio e espero poder partilhar de um encontro com a pessoa mais importante pra mim: EU.