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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Me ame por favor! (continuação)



O grande segredo guardado a sete chaves por mim é que eu ansiei a vida toda ter algum tipo de doença grave. Por favor, não estou aqui fazendo qualquer tipo de apologia a morte ou qualquer coisa do sentido. A coisa toda é que percebi nesse meu momento "rainha das dores" o quanto isso está relacionado a minha doença psíquica e a busca por amor. 

Vou relatar um pouquinho da minha história para que vocês entendam o que quero dizer.

Eu tenho um irmão e uma irmã que são bem mais velhos que eu. Meu irmão do meio sempre foi muito doente durante a nossa infância. Ele tinha dores de cabeça terríveis onde ele chorava, se contorcia e gritava de dor. Os médicos não conseguiam descobrir o que ele tinha. Suspeitaram de câncer, sinusite aguda, aneurisma e até mesmo HIV, mas nada foi realmente apontado como a causa do que ele sentia. Meu irmão chegou a passar alguns meses na casa de uma tia no Paraná para tratamento médico. Acontece que nesse tempo meu irmão recebia todas as atenções possíveis. Tudo era para ele, os dias de sono perdido, os carinhos, os mimos... e tudo era porque "seu irmão é doente". Até hoje meu irmão é o preferido da casa.

Voltando a falar de mim, desde a minha adolescência de alguma forma eu busquei a doença. Desejava seriamente ter algo grave, que podia acordar um dia e descobrir que tinha algum tipo de câncer ou aneurisma, ou mesmo algum tipo de doença mental grave que me levasse a um internamento em algum manicômio. Bebia até passar mal, fumava até ter falta de ar e assim levava meus dias. Sempre dizia aos meus amigos que já que eu não tinha coragem de me matar de uma vez eu me mataria aos poucos, afim de morrer precocemente.

E justamente agora, no auge dos meus 27 anos e cheia de dores pra lá e pra cá (onde é lógico que na minha mente louca penso ter algum tipo de doença grave) olhei pra dentro de mim mesma, sem pudores e sem preconceito, observando tudo o que há de mais podre em mim e me questionei o porque eu eu desejar esse tipo de coisa (afinal de contas, quem em sã consciência quer ter uma doença grave e morrer?).

Bom, sou borderline a vida toda. Desde minhas mais remotas lembranças eu demonstro traços desta dificuldade em lidar com sentimentos e situações e principalmente a carência de afeto e aprovação do outro. A grande sacada é que na doença eu vi um meio de receber carinho e atenção (tendo como principal exemplo o caso do meu irmão), vi algum tipo de amor que eu raramente experimentei e que eu desejo arduamente que as pessoas sintam por mim, em especial a minha família. E é por isso que eu não tenho medo de estar doente. Muito pelo contrário! 

EU SOU MUITO LOUCA MESMO!! Fico de cara com as coisas que descubro sobre mim. Aonde foi que eu me perdi?

A maioria das pessoas hipocondríacas são assim por medo de morrer e de ficar doente. Eu pelo contrário, sou viciada em dorflex simplesmente porque quero me entupir de alguma coisa que pode em algum momento da vida me fazer mal. Claro que o dorflex também tem um outro efeito sobre mim, principalmente nas minhas crises de ansiedade, pânico, afeto e principalmente naqueles dias que a dor e o vazio são insuportáveis, pois ele de alguma forma me acalma. Deve ser por causa do efeito analgésico. Acrescento a esta lista de "remédios para os momentos de crise" o torsilax, cuja caixa tomei toda em menos de uma semana. Tudo em excesso! Se fico gripada sempre tomo o dobro das doses de remédio, de xarope e qualquer outra coisa. Adoro tomar a minha droguinha anti-depressiva, odeio remédios manipulados e os considero ineficazes ao efeito que eu busco. 

Queridos que em algum momento lerem este blog, não achem isso legal porque definitivamente não é! Eu tenho um problema, tenho um transtorno de personalidade descrito nos manuais psiquiátricos internacionais. Tudo o que descrevi aqui não é saudável! Eu não ligo dos meus desejos auto-destrutivos, mas sinceramente e de todo meu coração não desejo isso pra ninguém!

Espero que ao menos entendam o quanto isso é um desabafo pra mim. 

Até logo.



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Abandono e pânico: minha primeira recordação

Não sei ao certo quando comecei a me sentir ou ser assim, mas minha memória sempre me leva aos meus 10 anos mais ou menos, talvez um pouco menos.



Meu primeiro episódio de pânico com relação ao abandono eu tinha menos de 10 anos. Não me lembro se eu já frequentava a escola, mas acredito que sim. No dia em questão eu e minha mãe estávamos sozinhas em casa. Meu pai havia levado meu irmão para pescar e minha irmã estava na casa de alguma de nossas primas. Enfim, eu e minha mãe estávamos sozinhas em casa.
Era por volta de 3 ou 4 horas da tarde e minha mãe disse que era hora de tomar banho. Entrei no banheiro e ela entrou comigo. Conversamos um pouco e ela saiu do banheiro, me deixando tomar banho sozinha. Até ai tudo bem, normal como em todos os dias. Eu aproveitei para brincar, e demorei um bocado no banho. Achei legal porque minha mãe não veio dizer que eu devia terminar logo o banho.
Terminei. Desliguei o chuveiro, me sequei e fui pro quarto me trocar. Coloquei uma roupa e chamei "Manhê". Não houve resposta. Chamei de novo "Mãe". Nada...
Foi ai que o desespero começou. As lágrimas começaram a escorrer e eu sai pela casa procurando ela e chamando-a. Em cada cômodo um novo soluço e uma dor que ia aumentando cada vez mais no meu peito. Meu coração batia rápido. Me vi totalmente sozinha, com medo e desesperada. Saí para fora de casa e tranquei o portão, entrei e tranquei todas as portas e janelas. Me joguei no chão do corredor dos quartos e comecei a gritar. Dava murros no chão, chorava e perguntava porque ela tinha me abandonado, me deixado ali sozinha. A dor era enorme, como se ela pudesse a qualquer momento se projetar para fora de mim e se materializar.
Foi então que eu ouvi ela me chamar do portão. Fui até a janela e lá estava ela, também desesperada me chamando, pedindo para eu abrir o portão. Fui lá, mas meu pai havia levado a chave do portão com ele. Ela pulou o portão e me perguntou o que estava acontecendo, porque ela estava na vizinha e ouviu meus gritos de lá. Eu continuei chorando e me sentindo muito envergonhada por ter me desesperado e enlouquecido daquela forma. Falei que ela me deixou sozinha e não me avisou que sairia. Não me lembro se ela me abraçou, mas ela disse que como eu poderia pensar que ela ia me deixar sozinha.

Este acontecimento sempre me deixou confusa. Sentir medo em me ver sozinha é aceitável, tendo em vista que eu era uma menina pequena, mas a intensidade daquele sentimento, que depois se repetiu tantas e tantas vezes na minha vida, é que me chama a atenção. Ate saber que eu sou borderline eu achava que todas as pessoas se sentiam como eu. Achava sem coração as pessoas que terminavam e começavam relacionamentos com a facilidade com que trocam de roupas, ou sentia uma certa inveja das pessoas que saiam da casa de seus pais e se tornavam bem sucedidos e independentes, porque eu queria conseguir ser como elas. Eu sempre me perguntei o que havia de errado comigo?

Tudo agora é uma construção e digo que é extremamente difícil. Difícil porque estou cercada por pessoas que não compreendem o meu transtorno, e ainda pior: não o aceitam. Tive uma briga com meu pai na ultima quinta-feira. Meu pai é o mestre de jogar com a culpa. Eu expor meu desejo de morar sozinha fez com que ele decretasse que eu não os amo (ele e a minha mãe) e que ele não poderia contar comigo para nada. Todos os meus medos se concretizam em saber que ele decepcionou-se comigo pois não sou bem sucedida como ele tanto investiu ou orgulhou-se de dizer quando passei em uma universidade federal ou fui fazer mestrado numa das mais conceituadas universidades do país, não sou responsável como ele sempre achou que eu seria, não sou uma boa filha porque não me importo com eles...

Por mais que eu queria transformar essa dor que esmaga meu peito a cerca de 20 anos, as vezes acho que nunca conseguirei.

Percebo cada dia mais que é um caminho que preciso percorrer sozinha. Cada vez mais é necessário que eu abandone a aceitação e aprovação do outro para constituir a minha vida. Ainda que a dor seja indescritível, sei que eu e tantos outros borders somos imensamente fortes, pois vivermos sob tensão, dor e pressão todos os dias, meses e anos de nossas vidas, e ainda sim conseguimos acordar todas as manhãs para mais um dia.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Desabafo sobre meus dias



Já faz algum tempo que eu penso que não estou vivendo. Passo os dias como se estivesse em um sono profundo e nem me dou conta de que o tempo está passando. Hoje pela manhã tomei um susto quando vi na cartelinha de anti-concepcional que uma semana inteirinha já se foi e eu nem percebi.

Ontem o dia foi completamente estupido. Dormi até tarde, tomei café e desci para trabalhar (meu trabalho fica na minha casa mesmo), almocei, tive vários surtos de compulsão alimentar e passei o dia todo com uma ansiedade chatíssima esmagando meu peito. De noite, depois do jantar fui pro quarto ler. Do nada me senti irritada, chateada e odiosa! Tive muita raiva da minha mãe sem uma razão exata. O surto de ansiedade piorou um pouco e meu coração começou a bater acelerado e uma angustia enlouquecedora me fez rolar na cama e desejar cair num sono profundo. Me senti totalmente desesperançosa. E sabe de uma coisa? Todos os meus dias são assim.

Tenho 27 anos, sou formada por uma universidade federal e mestre por uma das universidades mais conceituadas deste país, porém não trabalho na minha área. Simplesmente não me encontrei! Nas minhas reflexões pessoais acredito que isso se deve a insegurança quanto a minha identidade. Eu simplesmente não sei quem sou, não sei do que gosto, mudo rápido demais. 

Faz mais ou menos um ano que eu perdi as minhas referencias. Eu sempre tive referências. Amigos, conhecidos que eu achava descolados, namorado, eram estas pessoas que me autorizavam como ser. Eu era como elas, ou o que elas desejavam de mim. Mas dos amigos eu me afastei por causa do namorado, e o namorado já não é mais namorado, e eu voltei pra casa dos meus pais e é aqui que eu passo o dia, todos os dias, o dia todo...

Dormir tem sido uma fuga pra mim. Em geral durmo o máximo que posso. Me recolho cedo, por volta das 21 horas e acordo no outro dia as 7:30 da manhã e depois do almoço eu sempre durmo mais ou menos 1 ou 2 horas. Saio muito pouco de casa, em geral para ir a igreja e raras vezes para sair com alguns poucos amigos que de vez em quando se lembram de mim. Confesso que minha vontade é sair, encher a cara, transar com um desconhecido, me entupir de alguma droga e voltar pra casa no outro dia. Mas só de pensar na angustia e dor que tudo isso me causaria depois que o efeito do álcool e das drogas passasse, que eu opto por ficar quietinha na minha casa. Tenho experiência com esse tipo de situação, e sinceramente estou cansada de me sentir um lixo de pessoa.

E assim são os meus dias. E especialmente ontem, especialmente agora, me sinto sem esperanças de um dia ter uma vida com o mínimo de equilíbrio possível.


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Boca descontrolada



Não sei muito bem quando foi que isto começou, mas sei muito bem das consequências! Já não é de hoje que sei sobre a minha compulsão alimentar. Muito antes de ter um diagnóstico TPB ou de depressão eu já falava sobre minha compulsão. Resume-se a: Estou feliz? Vou comer! Estou triste? Vou comer! Estou deprimida? Vou morrer de tanto comer! Estou ansiosa? Comer! Comer! Comer!

A comida pra mim é vida e morte. É como se eu a usasse na tentativa de preencher algo, suprir, reprimir, aliviar sensações e sentimentos que eu não sei explicar! O pior é a culpa que eu sinto depois de comer e comer coisas e mais coisas, como agora por exemplo quando acabei de almoçar e "tive" que comer um pedaço enorme de bolo de chocolate recheado somado a mais um beijinho de leite ninho. Ou como ontem, quando eu nem tinha tomado café da manhã ainda e já estava comendo três bombons de chocolate recheados com frutas. É triste e lamentável! Não é algo que se possa dizer: "controle-se", porque é insuportavelmente doloroso. Se eu não como eu sinto náuseas, dor de estômago, fico agitada e inquieta como uma drogada em abstinência, e isso é muito triste.

Minha compulsão me levou a pesar 92 quilos, quando eu tinha apenas 22 anos. Nessa época eu estava no final da minha faculdade e tinha reencontrado um amor virtual (que já era a razão da minha existência). Ele me falou que viria finalmente me conhecer na minha formatura. Ah... o amor border... Na expectativa de encontra-lo e ser desejada por ele eu consegui me manter em uma dieta e driblar a compulsão. Se eu ia comer eu pensava nele, virava as costas pra comida e fumava maços e mais maços de cigarro. Perdi 20 quilos em seis meses e quando ele finalmente chegou aqui na minha cidade eu pesava felizes 71 quilos.

Eu consegui manter esse peso nos três anos que estive com esse amor (mesmo com toda a turbulência desse relacionamento, do qual falarei numa outra ocasião). Mas, como nada na vida de um border são flores, o relacionamento acabou e cá estou eu: incontrolável! Eu tento entrar em dietas e academias, acordo em dias determinada a mudar a minha vida, mas nada dura muito tempo. No primeiro sinal de descontrole emocional (que geralmente acontece pelas mínimas coisas), tudo cai por terra e eu volto a me sentir incapaz e um lixo de pessoa.

Acho ainda mais triste enfrentar essa situação sozinha, sem uma ajuda especializada. Minha mãe sempre pegou muito no meu pé com relação a comida. Esta é uma das razões pelas quais resolvi falar disso hoje. Antes do almoço assaltei um doce na geladeira e ela retrucou "Tá querendo virar uma balofa?". Sei que na cabeça dela ela estava me alertando e desejando o meu bem (como ela fez a vida toda comigo). Mas você já tentou dizer a um viciado para que não use drogas? Não é um simples desleixo. É uma dependência somada a uma falta de amor próprio insuportáveis. Minha vontade foi responder "Deixa eu me matar e não se mete!", mas eu só sai de perto e fui me achar uma idiota no sofá da sala. Não pensem que fico feliz em ser assim. Eu não gosto de ser assim. Minha psiquiatra me passou um anti-depressivo (sertralina) que me ajudaria com os sintomas de ansiedade, impulsividade e compulsão. Faz um mês que faço uso de 50mg, e não vi melhoras nos meus sintomas de compulsão. Vou colocar isso para ela na próxima consulta. 

Minha vida tem se resumido em existir, e mesmo apenas existir tem horas que é difícil demais!

A luta continua.

Beijos.